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Carta de ex-funcionário da Globo repercute
Há
uma grande repercussão no meio profissional das comunicações, a
carta do jornalista Rodrigo Vianna que deixa a Globo. Reproduzida na
forma de e-mail, a correspondência traz o desabafo do jornalista,
cujo contrato vence em janeiro e a Globo decidiu não renovar.
Questões há muito do conhecimento de todos, como o partidarismo do
jornalismo da emissora, vêm novamente à tona. O Portal Imprensa a
reproduz a mensagem e nós a colocamos à disposição dos radialistas:
No início de sua carta, ele afirma que a Globo fazia bom
jornalismo sob a gestão de Evandro Carlos de Andrade e que ele tinha
orgulho de estar na equipe; mas que a chegada das eleições
presidenciais mostrou que tudo foi "ilusão".
"O que vivemos aqui entre setembro e outubro de 2006 não foi
ficção. Aconteceu", escreve, para em seguida descrever: "Intervenção
minuciosa em nossos textos, trocas de palavras a mando de chefes,
entrevistas de candidatos (gravadas na rua) escolhidas a dedo, à
distância, por um personagem quase mítico que paira sobre a Redação:
`o fulano (e vocês sabem de quem estou falando) quer esse trecho; o
fulano quer que mude essa palavra no texto´".
Chamando os chefes de Jornalismo do canal de "aloprados", Vianna
diz acreditar que a cobertura "botou por terra anos de trabalho".
Apontando uma série de fatos pontuais nas matérias sobre os
escândalos dos dossiês e das sanguessugas, especialmente as
veiculadas pelo "Jornal Nacional", ele afirma que o clima na Redação
paulista da Globo se tornou muito pesado durante e depois das
eleições.
"Ao lado de um grupo de colegas, entrei na sala de nosso chefe em
São Paulo, no dia 18 de setembro, para reclamar da cobertura e pedir
equilíbrio nas matérias: `por que não vamos repercutir a matéria da
IstoÉ, mostrando que a gênese dos sanguessugas ocorreu sob os
tucanos? Por que não vamos a Piracicaba, contar quem é Abel Pereira?
Por que isso, por que aquilo...?´", conta. "Nenhuma resposta
convincente. E uma cobertura desastrosa. Será que acharam que
ninguém ia perceber?".
"Não vi matérias mostrando as conexões de Platão com Serra, com
os tucanos. Também não vi (antes do primeiro turno) reportagens
mostrando quem era Abel Pereira, quem era Barjas Negri, e quais eram
as conexões deles com PSDB. Mas vi várias matérias ressaltando os
personagens petistas do escândalo", aponta. "E, vejam: ninguém na
Redação queria poupar os petistas (eu cobri durante meses o caso
Santo André; eram matérias desfavoráveis a Lula e ao PT, nunca achei
que não devêssemos fazer; seria o fim da picada...)".
Classificando a cobertura eleitoral da Globo de "furada", ele
critica também alguns pontos do "Manual" da emissora. "Está difícil
continuar fazendo jornalismo numa emissora que obriga repórteres a
chamarem negros de `pretos e pardos´. Vocês já viram isso no ar?
Sinto vergonha...", escreve. "Mas, também, o que esperar de uma
Redação que é dirigida por alguém que defende a cobertura feita pela
Globo na época das Diretas?".
Vianna diz acreditar que a missão dos jornalistas que permanecem
na Globo de fazer um bom Jornalismo não será fácil. "Olhem no ar.
Ouçam os comentaristas. As poucas vozes dissonantes sumiram.
Franklin Martins foi afastado. Do `Bom dia Brasil´ ao `JG´, temos um
desfile de gente que está do mesmo lado", constata. "Nunca, nem na
ditadura (dizem-me os companheiros mais antigos) tivemos na Globo um
jornalismo tão centralizado, a tal ponto que os repórteres trabalham
mais como bonecos de ventríloquos, especialmente na cobertura
política! (...) Fico apenas preocupado por ver uma concessão pública
ser usada dessa maneira".
Ao final de sua mensagem, o repórter afirma que está aliviado de
não mais conviver com personagens "pretensiosos e arrogantes", mas
que sentirá saudades das pessoas e dos colegas mais próximos:
editores, chefes de reportagem, cinegrafistas. E encerra: "Perdi
cabelos e ilusões. Mas, não a esperança" |