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Imprensa reincide em erro
É
oportuna a divulgação do artigo de Carlos Brickmann,
publicado no site Consultor Jurídico, e que leva a uma
reflexão sobre o papel da imprensa, e que relembra, inclusive, o
mesmo erro já cometido contra a Escola de Base, em São Paulo. Vale a
pena a leitura atenta. Confira:
Palavra que mata
Polícia é polícia, jornalista é jornalista
por Carlos Brickmann
Aconteceu de novo: uma moça, Daniele Toledo do Prado, de Taubaté,
detida pela acusação de matar seu bebê por overdose de cocaína, foi
estripada pela imprensa, que mais uma vez aceitou como verdade
aquilo que não passava de uma suspeita da Polícia. Devido ao
noticiário, que a tratou como Monstro da Mamadeira, a moça foi
espancada por 19 presidiárias na Cadeia de Pindamonhangaba e teve o
maxilar quebrado. Por pouco não foi morta.
Só que, concluído o laudo, verificou-se que não havia cocaína no
bebê. A história toda era uma invenção. A imprensa está noticiando o
caso em detalhes — todos os detalhes, menos um: a cumplicidade da
própria imprensa na destruição da vida da jovem mãe. O principal
jornal da região publicou, pouco mais de um mês atrás, frases como
“a mulher foi presa domingo depois que sua filha morreu, às 10h40,
após uma parada cárdio-respiratória provocada por overdose de
cocaína”. Um portal de Internet abriu com “Mãe que deu cocaína à
filha deixa o hospital e é isolada”. Um dos maiores portais do país
quase justificou a atitude das presas que espancaram a moça,
“revoltadas com a brutalidade do crime”.
E como a imprensa está tratando seu próprio papel neste crime?
Boa parte dos veículos de comunicação — excetue-se o ombudsman da
Folha de S.Paulo, Marcelo Beraba, jornalista de primeiro time, que
entrou fundo no caso — finge que não tem nada com isso: apenas
informa que houve equívoco, bota a culpa na Polícia e numa médica
chamada Eryka, cujo sobrenome não é divulgado, e se cala sobre o
noticiário cúmplice que publicou. Um gigantesco portal de Internet
foi mais longe: seu título original foi “Mãe mata bebê com cocaína
na mamadeira e é indiciada”. No último dia 6, quarta-feira passada,
comprovada a inocência da mãe, discretamente mudaram o título antigo
para “Mãe suspeita de matar bebê com cocaína é indiciada”. É a prova
da culpa: tentam reescrever a História. Colocaram o título correto
só depois que o mal já estava feito.
As impressões digitais
O problema, em nossa época de computação, é que os
leitores-internautas têm recursos para documentar a falta de caráter
— pois o mínimo que os veículos de comunicação deveriam fazer seria
reconhecer o erro e tentar desculpar-se. Nem isso fizeram. O atento
leitor Marnei Fernando, de Goiânia, registrou as mudanças passo a
passo. Não foi o único: veja, neste Observatório da Imprensa, os
comentários à coluna Circo da Notícia da semana passada.
Para nós, jornalistas, que vergonha!
Repetindo a nojeira
Na última coluna, relembrávamos o caso da Escola Base. Não
adiantou a reflexão, não adiantaram as sentenças judiciais, não
adiantou nada: alguns jornalistas amestrados continuam a se ajoelhar
diante das “otoridades” e a render-lhes homenagens — em vez de, na
boa tradição jornalística, duvidar do que dizem, investigá-los e
saber se estão ou não falando a verdade. Autoridade também mente!
Na pior das hipóteses, caso os jornalistas não queiram mesmo se
envolver com essa coisa desagradável que é trabalhar, brigar com
doutores e excelências, lutar para encontrar a verdade, há o recurso
de atribuir a versão a quem a declara. “O delegado disse que (...)”,
“na opinião do promotor, o que aconteceu foi o seguinte (...)”, “o
governador acha que (...)”. Jamais, como se fez, publicar uma
opinião como se fosse fato, exclusivamente por ser a opinião de uma
autoridade. E, naturalmente, ouvir a vítima dos ataques. No caso, a
moça só foi ouvida depois que a própria Polícia reconheceu o erro e
a libertou.
Desafiando os ilustres
Detalhe importante: na semana anterior à morte do bebê, a mãe
registrou queixa de estupro contra um médico-residente do hospital.
Terá sua ousadia, de acusar um futuro-doutor, algo a ver com a
tragédia que se abateu sobre ela, com a participação intensa das
autoridades e da imprensa?
Pergunta que não se fez
Uma dúvida que deveria ter levado os jornalistas a desconfiar do
caso: por que matar um bebê com cocaína, que é cara e deixa traços?
Se a mãe fosse viciada, por que desperdiçaria cocaína com o bebê, em
vez de cheirá-la?
Isso lembra outra história ridícula em que a imprensa esteve
envolvida, quando uma grande fábrica de confeitos foi acusada de
colocar cocaína nas balas vendidas à porta das escolas. E para que a
indústria faria isso? Se os estudantes se viciassem em cocaína, quem
ganharia seriam os traficantes, não ela. Não obstante, a empresa foi
crucificada. E, para sobreviver, teve até de mudar a marca de suas
conceituadas balas.
A imprensa como ela é
O caso da mamadeira teve ampla repercussão, por envolver um bebê.
Mas, não há muito tempo, também no Vale do Paraíba, uma senhora,
farmacêutica, levou à filha presa um remédio de manipulação. O
remédio vinha em forma de pó branco. Antes de qualquer análise, a
senhora foi presa; e a notícia enviada ao principal veículo impresso
da região, publicada com destaque, de maneira acrítica, foi algo do
tipo “mãe leva cocaína para filha presa”. Enquanto se concluía o
laudo do pó, a senhora ficou presa. Ficou oito dias na cadeia e foi
libertada. O caro
leitor, se quiser fazer um exercício de jornalismo explícito, poderá
se dar ao trabalho de procurar a notícia sobre a libertação desta
senhora. Se conseguir encontrá-la (há um excelente programa de lupa
para computadores), vale comparar os espaços destinados à acusação e
prisão com o cubículo de pé de página oferecido à comprovação de
inocência e à soltura. Outro exercício interessante seria procurar o
mea-culpa do jornal. Este colunista não o achou.
Como é que se reconstruirá a vida desta senhora brutalmente
atacada, considerando-se que sua profissão, farmacêutica, se baseia
na confiança do cliente?
Lúcio Flávio
Um famoso bandido carioca, Lúcio Flávio Villar Lírio, cunhou uma
frase que deveria ser óbvia (mas não é): Polícia é Polícia, bandido
é bandido. Temos de parafraseá-lo: Polícia é Polícia, jornalista é
jornalista. O jornalista deve desconfiar de todas as fontes,
especialmente das poderosas e que andam armadas. Pode até ser amigo
do policial, mas não pode confiar cegamente naquilo que ele diz.
Publicado no site Observatório da Imprensa
Revista Consultor Jurídico, 14 de dezembro de
2006 |