Sintonia

VERGARA MARQUES
RADIALISTA COM MUITO ORGULHO

Seus arquivos pessoais registram cópia impressa do pronunciamento de Lauro Hagemann proferido na Câmara Municipal, quando lhe foi concedido o título de Cidadão de Porto Alegre. Nos referimos a Vergara Marques, natural de Jaguarão que, em 1988 ao receber a distinção de cidadão, teve seu trabalho destacado na saudação do amigo, vereador e radialista, que em 1962 foi o primeiro presidente do Sindicato dos Radialistas.Nesta homenagem Hagemam se refere a Vergara como companheiro de lutas radiofônicas, exaltando a sua trajetória, que soube como poucos, transmitir emoções nos microfones. Vergara é tido como um dos companheiros das lutas que sustentaram, junto com os radialistas da cidade e do estado, a construção do Sindicato.

Além do título de cidadão, ele colecionou ao longo da carreira uma grande quantidade de prêmios que, com méritos inconfundíveis o distinguiram como sendo um dos pioneiros do rádio segmentado. Viveu e contribuiu como poucos numa época em que o rádio concentrava o mundo cultural da cidade.

Hoje aposentado, sempre que tem oportunidade exalta a sua condição de radialista, a qual sente muito orgulho. Diz que fez uma carreira linda, deparando-se com ela por um acaso do destino, contrariando o que o futuro lhe reservava: "Eu era pra ser um bombachudo em Jaguarão e se eu tivesse quer vir mais três vezes radialista, eu seria mais três vezes radialista".

Mas para a felicidade da radiodifusão e de seu público ouvinte, o destino lhe aplicou uma peça. À época em que era acadêmico de direito foi acompanhar um amigo que faria um teste na Rádio Farroupilha. O amigo, louco por rádio, viu frustrada a sua avaliação e Vergara foi provocado a realizar um teste também. Seu despojamento e talento nato o levaram ao que ele considerava uma mera brincadeira, a receber convite para atuar nos microfones da emissora.

Contatou então o amigo e programador da Gaúcha, Milton Vergara Correia e contou-lhe a novidade. Milton foi conferir as habilidades de Vergara e de imediato lhe fez também uma proposta.

A concorrência o levou a optar pela Gaúcha e foi nesta emissora, que à época possuía um estúdio e um auditório no 11º andar do Edifício União e o Departamento de Esportes e Notícias localizados na Sete de Setembro, que ele deu início a sua deslumbrante carreira. Não foi uma mera contratação, pois três anos após, partiu dele um fato que alterou a rotina e a história da emissora.

Em 54, quando soube da morte de Getúlio Vargas e coube-lhe a tarefa de anunciá-la, mudou os rumos da programação. Não se conteve e, ao invés de anunciar o capítulo da novela Poder do Ódio, comunicou que seu capítulo seria substituído por música clássica. Causou alvoroço e correria na emissora, mas sua atitude em respeito à morte de Vargas repercutiu e deu prestígio a emissora. Neste dia, tanto a Difusora como a Farroupilha foram incendiadas e saqueadas, ficando a Gaúcha incólume às agressões.

Na emissora atuou como locutor comercial e locutor esportivo. Nessa área também buscou inovar e fez distinção entre os gêneros esportivos que mesclavam em sua programação transmissões de futebol e de turfe. As narrações de futebol eram constantemente interrompidas para a transmissão de turfe, fato considerado por Vergara como uma atitude desagradável e de desrespeito aos ouvintes amantes dessas modalidades esportivas.

Foi quando pode pôr em prática sua concepção na oportunidade que teve na Rádio Itaí, comprada em 56 por dois diretores da Gaúcha. Recebeu convite e lançou Turfe e Boa Música que perdurou por 17 anos de ininterrupto sucesso.

Para ele a emissora [Rádio da UFRGS] representa a síntese do que deve ser o rádio em um país como o nosso.

Gaúcha, Farroupilha e Difusora não foram as únicas contempladas com a sua magnífica performance diante dos microfones. Ele também teve gloriosas passagens pela Princesa, Pampa, Capital, Sucesso, 1.120 da RBS e pela Rádio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a pioneira das emissoras universitárias do país.

Vergara foi o primeiro locutor da Rádio da Universidade, que foi instalada em 1952, mas que somente em 1957 foi oficialmente inaugurada. Sua programação essencialmente cultural e educativa era estimulante, principalmente por não ter o jugo da publicidade que impunha e ainda impõe condições às emissoras. Para ele a emissora representa a síntese do que deve ser o rádio em um país como o nosso. Segundo Vergara, uma rádio não pode se "populachar" e hoje a maioria está fazendo isso. Este ano a Rádio da Universidade completa 49 anos em 18 de novembro e ele espera poder participar dessa comemoração, assim como dos seus 50 anos.

Aos saudosistas de sua atuação, a AGE Editora disponibiliza em uma coletânea intitulada Coleção Palavra, um CD onde Vergara nos dá a chance de conferirmos o seu talento através da narração de contos. Vale a pena recordar e conferir.